Minha memória não é lá das mais proustianas, nunca comi uma madeleine na vida, mas vez ou outra eis que puxo uma recordação aqui, outra acolá, quando me deparo com algo que me remete a alguma lembrança dessa minha vida já não tão breve.
Dia desses, lendo o post das meninas do No Lipstick sobre alguns seres humanos do modelo mau-caráter que se aproveitam da boa vontade das pessoas que vão catar as cartinhas do Natal dos Correios para ajudar a quem realmente precisa, veio à mente um caso acontecido na época em que eu era estagiário do setor de operações financeiras daquela estatal.
A propósito, nem sei se já contei essa história por aqui, mas, por via das dúvidas escrevo novamente, porque quando a gente fica velho, qualquer coisa que exercite a memória faz bem. Inclusive, tenho de comprar um monte de palavra-cruzada.
Do nível fácil, que também não é bom esculachar com Tico e Teco...
Pois então. Ao final do ano, todos do setor elegiam umas duas ou três cartas para serem contempladas, dada a simplicidade do pedido e a sinceridade da carta. Como nós no setor meio que nos subdividíamos em três (cheque-correios, vale-postal, expediente) eu, que me subdvidia (sabe, estagiário e sua fama de bombril) nestas mesmas três subdivisões acabei me integrando com o pessoal do vale-postal para cooperar na vaquinha para a compra de uma bicicleta (na época em que ainda se pedia uma).
Bem, a carta em si pedia um pouco mais do que isso. Textualmente, ela dizia o seguinte, entre outras coisas:
"Querido Papai Noel
Um dos meus grandes sonhos sempre foi ter uma bicicleta. Aqui a gente não tem muito o que fazer, então eu gostaria de ter uma pra poder andar no terreno. Eu acho o terreno fera pra andar de bicicleta. E minha mãe não pode comprar uma pra mim. Ela vive devendo na feira. Por isso que, Papai Noel, eu podia até pedir ao Senhor que mandasse alguma ajudinha pra ela (ou ela tem que escrever cartinha também?
Então, sei que posso estar sendo chato, mas eu acredito no Senhor.
Abraços
L."
Nós todos cremos piamente que a parte da tal "ajuda", foi proposta por intervenção lá da mãe, mas a gente não se abalou com isso e fizemos a vaquinha, compramos a bicicleta e ficamos à espera da resposta do garotinho (abreviei o nome pra evitar sabe-se lá o quê). Que veio, quinze dias depois, e todos nos juntamos para lê-la. E nos deparamos com um breve agradecimento:
"Querido Papai Noel
Muito obrigado, estou muito feliz com a bicicleta que o senhor me deu e que os Correios vieram entregar! Já estou dando muito pinote aqui no areal com ela.
Ah, imagino que o Senhor também desenrolou aquela graninha pra ajudar minha mãe, mas esses filhos da puta dos Correios, como sempre, devem ter roubado!
Abraços,
L."
C'est la vie.
Ao perdedor, as pancadas.



5 comentários:
iuahuahauahaua
acho que vc já tinha contado, pq realmente eu já tinha lido
mas nem lembrava da história... que é mto boa por sinal!
é desconfiança dos dois lados, né? fico com medo todo ano, pq minhas compras de bugigangas chinesas sempre são extraviadas pelo correio... mas a gt tenta. afinal, roubar de criancinha é crime em dobro! quero acreditar que eles não teriam essa coragem!
ahahahahahaha Muito boa!!!
O pessoal do correio roubar é grana foi engraçado! Eu fico imaginando a cara de vocês enquanto liam a carta!
Ei, eu já li isso. Ou você já contou ou virou piada e me contaram por aí.
Hehehe!
Piada, né?! Só pode. hahaha
beijos daqui...
Tô por aqui vasculhando teu blog e rindo muito dessas tuas experiências...
Postar um comentário