O pararraio de doido

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Enfim, começar o ano em meio a esse calor infernal - e já se tornou meio que praxe falar dele nessa época - e ainda ferindo meus olhos com essa nova ortografia (outra discussão que vem se arrastando) é dose. E pagando conta, ainda mais. 
Não bastasse isso, andar no centro desta megametrópole, Paulista. Mas, pudera, quem manda não confiar no Internet Banking do Banco do Brasil?
Bem, sendo do BB, creio que muita gente me entende.
Quando eu me dirijo para o ponto do busão, bebendo água para não desidratar e com lentes escuras por cima das minhas lentes de grau (não tenho dinheiro pra pôr grau nos óculos escuros) eis que vejo uma figurinha se aproximando, e por um breve olhar para os seus olhos (poético, não?) percebi que a figurinha - um rapaz moreno, alto, com cara de xarope - não era bem da cuca. 
Enfim, um doido.
Toda vez que vejo um doido na rua, no sentido patológico do termo, lembro-me obviamente dos meus tempos de hospício - do tempo que trabalhei lá, que fique bem claro. Àquela época já vinha sendo discutida a lei antimanicomial, uma lei muito boa, mas que, sendo brasileira, tem o grave defeito de ser cheia de boas intenções. 
Explico: os hospícios brasileiros, os particulares, sobretudo, cansaram de comer recursos do SUS, ou seja nosso dinheiro, para fabricar maluco. Gente que entrava sã - aposentados, drogados,homossexuais expulsos por suas famílias "cristãs", autistas, alienados de grau leve - ficava mais doida ainda. Pudera: em muitos "hospícios" sequer  havia terapia ocupacional. E ainda havia "soluções" para os maluquinhos. É gay? Lobotomia. É nervoso? Lobotomia e eletrochoque. É velho reclamão? Glicose...e por aí vai. 
Ainda bem que, onde eu trabalhei não havia isso, a diretoria era humana e acontecia de receber pacientes de instituições que eram fechadas pelo Ministério da Saúde.
Aí veio a lei antimanicomial e eu pensei: aí vem merda. À exceção dos criminosos que deveriam permanecer enclausurados no Manicômio Judicial, cabia aos parentes e responsáveis pelos alienados mentais ampará-los, com ajuda pecuniária oficial. A segunda parte, tudo bem, mas e a primeira?
Ainda assim, quando começamos o processo de alta coletiva e chegamos ao cúmulo de irmos às casas das pessoas para entregar os pacientes e nem assim elas quererem.
E quem os recebia ou os prendiam em condições deploráveis ou os deixavam ao deus-dará, talvez na esperança de que escorregassem no meio-fio do destino e batessem a cabeça na quina do dito cujo ou fossem atropelados.
Bem, quando vi o rapaz, pensei nessa segunda hipótese, mas faltou a confirmação da piração dele, o que não se fez tardar, quando ele viu um casal, que estava próximo a mim e saiu-se com essa:
- Eleutério!Como vai sua esposa? Já viu o eclipse total do sol hoje?
Obviamente que o rapaz e sua namorada - ou esposa, vá saber - não entenderam patavina. Se não deram corda pro doido, ao menos não foram grossos com ele, como já aconteci de presenciar mais de uma vez, principalmente com uma figura carimbada das ruas recifenses no final do milênio passado, o Agora Vai (ele ficava correndo pelo Parque 13 de Maio, no Centro, gritando as palavras que o alcunharam). Menos mal.
Fiquei olhando o rapazinho na esperança de que ele seguisse outro caminho e desfizesse, ao menos uma vez, a minha fama de pararraio de doido, mas qual o quê...Ele sorriu e veio em minha direção.
Minha experiência é vasta. Desde que topei com um maluco nas ruas de Viena, em 99, me chamando de monarquista e me dando chaveirinho com o emblema dos Habsburgos, vi que você pode até sair do hospício, mas o hospício não sai de você. E com doido não se discute. Mesmo quando ele vem com uma dessas:
- Floriano, meu amigo, Flor!Como vais???
Então, a solução é embarcar:
- Tudo bem, Celestino!E as coisas, como vão? 
A essa hora o povo no ponto de bus já ria.
- Celestino? Meu nome é Rômulo!
-Ah, desculpe-me, você é a cara do meu amigo Celestino, que era astrônomo. Inclusive, acho que ele iria adorar o eclipse...
Rosto de espanto:
- Que eclipse, meu senhor?
E eu:
- Como assim, que eclipse?Olha pro céu...
Ele olha e olha pra mim, assustado e se saindo:
- Eu hem, só me aparece doido...
E vai embora, sem olhar pra trás e com o povo na parada rindo (da minha cara, claro).

10 comentários:

Laninha disse...

kkkk...
A vida nos "presenteia" com cada coisa, né?!!
rsrsrs

ℓ.mirella disse...

Cara, eu sempre atraio doido também.
Pareço um imã de maluco, será que eu já passei uns tempos em algum hospício e não estou lembrada? iuashiusahiush


Mas ein, glicose serve mesmo para velhos reclamões? hahaha

xD

Lis/Tania disse...

Tu és muito engraçado! :)))

SelmaXavier disse...

coisas que só acontencem com o seu Álisson da Hora. hehe...

Ana SS disse...

Adoro essas histórias.
Trabalho em um Caps, e tenho váááárias dessas na manga...rs

Alisson da Hora disse...

Então você me entende perfeitamente! =D

Carla Ceres disse...

Álisson, adorei história e texto! Retuitando, um... dois... três... já!

Marina disse...

Hahaahha! Me acabo com essas tuas histórias do manicômio.

Vou twittar.

ahahahahahah Tu embarcou legal e ainda fez o louco te achar mais louco. Muito bom... E eu achando que a loucura me seguia, tu ganha disparado! ahahaha

Fernanda Tavares disse...

adorei o blog, parabéns!

aconchegante e macio...

volto mais vezes! ;)

 
 
 

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