A sina

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eu sou dado a poucos momentos de lazer e relaxamento. E quando invento de "relaxar" não é nada bucólico ou prático. Eu invento de ir ver jogo de futebol. Quer divertimento mais cacete do que futebol? Você vê uma pelada de luxo, paga caro e ainda arrisca-se a ver o seu time perder. 
Coisas da vida.
Enfim, eu ao longo da minha vida tive fases mais presentes ao estádio, outras em que fico só ouvindo pelo radinho de pilha. Ou nem isso, pra evitar quebrá-los, dependendo da fase do time, não ouço é nada. Mas, desde 2008 que voltei a ser figurinha carimbada das arquibancadas frontais da Ilha do Retiro, lar do glorioso Sport Club do Recife, onde tenho amigos que só vejo em dias de jogos. Alguns até mais antigos, dos idos de 1988, quando comecei a ir só pra o clube da Praça da Bandeira.
Hoje foi estreia do Sport e não foi lá aquelas coisas, futebolisticamente falando. Mas, como dizia o Parreira, o que importa são os três pontos.
Não bastasse a voz rouca, afinal eu já vinha gritando desde a preliminar - o campeonato de júniores (é, eu me estresso com jogo de pirralho) -, a velha odisseia de pegar o Paulista/Conde da Boa Vista para retornar à megametrópole conhecida como Maranguape 1. 
Aí hoje vejo que nas poucas vezes que saio de casa, ultimamente minha sina de trazer doido pra perto de mim está meio que exacerbada. Se no último dia 3, ou seja, no post abaixo, eu topei com um maluco que me chamou de Floriano e ainda falou de um eclipse que aconteceria no dia seguinte no Hemisfério Norte (o qual eu não sabia que iria acontecer) ontem aconteceu outra bizarrice que, apesar de ser testemunhada por outras pessoas, eu passo a ter certeza absoluta de que não suceder-se-ia caso eu não estivesse naquele coletivo.
O caso: eu sentei junto à janela e ao meu lado sentou-se uma senhorinha, também voltando do jogo, e o seu amado estava na cadeira da frente, também do corredor e eis que ambos ficaram trocando aquelas amabilidades públicas que dispenso solenemente. Desde o "benzinho" ao desentupidor de pia e a lambida na orelha. Quando o busão passou por Olinda eis que vaga um lugar e a namoradinha apaixonada vai sentar-se junto ao seu senhor. Ao meu lado senta-se uma menina, creio que voltava do trabalho de atendente de alguma clínica ou loja comercial. Ela olhou pra mim e riu.
Eu, com toda a desenvoltura que me é peculiar, também ri.
E a viagem segue, eu estava ouvindo música e percebo entre os passageiros em pé um rapaz um daqueles bicho-grilo, típicos do Recife: camisa de algodão cru, calça de pescador de siri. Enfim, um maconheiro. Eu olhei a carinha dele e disse, pra mim mesmo, (que não sou besta), tá lombrado.
Se a minha constatação repleta de maus bofes estava certa previamente, até então só eu imaginava que sim. Pior foi constatar - ou imaginar ou ter certeza de que o cara era um pirado - pelos atos do sujeito.
Enfim, quem me conhece sabe que não sou lá o modelo de beleza que balança os coraçõezinhos das moçoilas deste pedaço do mundo - quiça no mundo inteiro. Acontece que a mocinha que estava sentada ao meu lado começa a se esfregar no meu ombro, o que obviamente, para mim, é das coisas mais estranhas do mundo e que tenho de passar pelo crivo do senso crítico antes de tomar uma atitude, de estabelecer um juízo.
Olhei com o rabo do olho e vi que a menina não estava se enxerindo para mim. Os olhinhos dela brilhavam em socorro. Olhei para o lado dela e vi a figurinha que eu tachara de maconheiro - inadvertidamente talvez - meio que se esfregando no ombro dela, não necessariamente com a cabeça.
Mas, também pude perceber, (pela atitude dele, claro), de que não se tratava de nenhum acesso de lascívia que às vezes ataca os cidadãos menos desavisados em ambientes coletivos. O sujeito estava num estado alterado de consciência que com os meus instintos treinados em um ambiente hostil (vide post abaixo) logo identifiquei como estranho. Ou seja, se ele não estava emaconhado, como eu imaginei, ele era doido, mesmo.
E um doido muito fedido, por sinal.
Ele olhou para mim e sorriu, segurando uma garrafa d'água, a esta altura também já alvo da curiosidade daquele fragmento do coletivo em que nos encontrávamos. E falou, em tom solene:
- A água, fonte da vida. A vida, serve-se da água.
Eu quase que dizia "ah, é?E por que tu não toma banho, ô fedorento?", mas a prudência reza que com gente neste estado (o de piração, ao menos) se tenha é cuidado.
E eu falei:
- Pois é, tá escrito no Gênesis.
Ele sorriu e deu uma goelada na água.
E disse:
- O que seriam dos seres vivos sem a água?
Foi aí que eu percebi que a água que ele bebia estava estranha, meio turva. Não sabia se era vinho Carreteiro ou água de esgoto, por isso perguntei baixinho à mocinha que estava ao meu lado:
- Essa água dele, tá suja?
E ela, assustada:
- O senhor não viu?Tem um peixe dentro da garrafa...
Ao que eu olhei, neste momento já indiscretamente mesmo, e percebi que tinha um desses peixes, que as crianças chamam de peixe beta (que se usa pra pôr pra brigar ou algo que o valha), e que nadava dentro da garrafa. 
É, ele estava bebendo a água do peixe.
E ele olhou pra mim e repetiu a pergunta:
- O que seriam dos seres vivos sem a água?
Aí que eu não me seguro e digo:
- Bem, esse peixe, ao menos, daqui a pouco não vai mais ser um ser vivo.
E ele se abaixa, pra assombro da menina, me olha com os olhos arregalados e diz:
- Quem me dera ser um peixe...
Para nossa sorte, quando ele disse isso, o bus já entrava no Terminal Pelópidas da Silveira. E nem eu, nem a menina, nem o povo do ônibus esperou-o terminar a música do Fagner.
Antes de subir no outro coletivo, o que me trouxe para casa, ainda o vi, perambular, com a garrafa na mão, falando algo pra si (ou para o peixe, quem sabe?) meio que sem saber qual rumo tomar.
Enfim, tomara que ele tenha chegado em casa e o peixe esteja em um límpido aquário. E não tenha virado fonte de proteína pra doido.

7 comentários:

PEDEPOESIA disse...

Quanto mais reza, mais assombração... digo, mais aluado aparece, né?

SelmaXavier disse...

oxe!
olhe pelo lado bom,(se é que existe algum lado bom nisso), se essa não fosse sua sina, talvez não nos déssemos tão bem. hehe... =P

Bom dia, Álisson. (f)

Laninha disse...

kkkk... Fico aqui aqui visualizando a cena rsrs...
E o que me parece mais "bacana", dentre toda singularidade do episódio ou dos episódios (eu li o último post) é a sua interação com os tais rs... Tão simpático! Não deve ser por acaso que vc os atrai rs...(brincadeirinha)
Abraço.

Carla Ceres disse...

Oi, Álisson! Acabei de chegar em casa e li seu texto alto pro Leroy. Não dá pra ler sem rir! Ele também gostou muito e manda um abraço. Então, dois abraços pra ti!

Lis disse...

O lado que atrai doido, deixa a veia cômica aberta. Eu adoro!
Beijos

Lis/Tânia

glória disse...

Olá Álisson,

Tomar um fato corriqueiro e traçar uma bela narrativa, é raro. Como antropóloga, posso dizer, que li um "denso" diário de campo. Essa passagem é muito boa:

"eu estava ouvindo música e percebo entre os passageiros em pé um rapaz um daqueles bicho-grilo, típicos do Recife: camisa de algodão cru, calça de pescador de siri"


É assim mesmo!

Aproveito pra' te dizer que gostei muito do teu texto na Revista da Editora Novitas, "O livro interpretante". Gostei da idéia lançada por Marilena Chauí de se identificar aquelas leituras que atiçam a capacidade imaginativa.

bjs

Alisson da Hora disse...

=) Obrigado, Gloria!

 
 
 

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