Nunca fui muito da turma da Pollyanna, que com aquele jogo chato, o do contente, me fez atear fogo no livro que minha mãe, já conhecedora dos meus pensamentos desde pequeno (Mãe, o livro do Apocalipse é tão legal!) me deu no intuito de injetar ânimo na minha alquebrada alma. Para mim o mundo sempre foi um chute nos testículos e cada segundo que passa fico achando que só faz piorar.
Álcool e similares até que ajudam, mas daí vem a porra da ressaca.
Das poucas coisas que mereceram atenção das minhas atividades cognitivas ao longo destas três décadas (e quase meia, meu Deus), a arte de falar mal do povo, e consequentemente mangar dele, foi a qual eu mais dediquei o meu esmero. Até porque, como diz uma amiga minha, é o mundo todo pra mangar de mim e só eu pra mangar do mundo.
Então eu mango mesmo e acabou-se.
Acontece que com essa onda de bullying e politicamente correto a gente meio que se cala, mas ainda bem que há os amigos, os quais a gente pode malhar o pau. E ainda melhor, aqueles que acham que são nossos amigos, os quais a gente pode destilar nossa deselegância e a criatura até que demora, de tanta demência, pra sacar que tá sendo demais.
Devo ter sido, em vários momentos da minha vida, alguém desse tipo, até que os anticorpos do semancol - que eu tomei com reforço - se manifestaram e me fizeram uma criatura desconfiada, que devolvia algumas injúrias desabusadas com uma infalível voadora na caixa dos peitos. Geralmente, resolvia.
Mas, ainda assim, como a gente diz por essas bandas "bulir com o outro" (não sei pra quê importar a palavra bullying, quando ao menos aqui já tínhamos a expressão correta pra tratar dessa coisa) era ainda mais eficaz do que uma tabocada no escutador de radinho de pilha.
Aconteceu com um colega, que se dizia meu amigo, que achou de se enxerir pro lado de uma paquera minha, na época em que a gente começou a se pegar.
O tal rapaz, metido a "underground" começou a se enfeitar de piercings igual árvore de natal, de tatuagens, feito carro de fórmula 1 quando isso ainda era malvisto na sociedade e não moda de pagodeiro e bregueiro. E, pra variar, o cara se achava demais, e dizia que eu era careta, porque não tinha coragem de fazer o mesmo. Nunca fiz isso por motivos pessoais, religiosos sobretudo, e porque eu pensava comigo "vou ficar velho e pelancudo, vai que tatuo um dragão e ele vira um sapo cururu?".
Pensamento muito justo.
O pobre rapaz, que tem as orelhas avantajadas (e eu dizia pra minha paquera que a TELPE, finada empresa de telecomunicações de PE, que cedeu lugar à Telemar, usara os pavilhões auditivos do mancebo pra moldar os seus orelhões) inventou de colocar alargadores e se exibir paras as mocinhas bicho-grilos da capital desta Província da Nova Lusitânia como o mais underground entre os undergrounds. Ficou ressabiado, depois de uma conversa que travou comigo num dia, perto do velho Beco da Fome, quando ele vinha se exibindo feito mostrador da Romanel, de tanto piercing pendurado.
- Digaí, Alisson Caretinha, a quantas anda?
- Devagar e sempre, que se for ligeiro eu enfio o focinho no poste. E tu?
- Ah, tô retocando as tattoos, estudando muito... Tens estado com A.? [a paquera, por motivos óbvios, não vou dizer o nome da mesma] Preciso falar umas coisas com ela...
- Tenho estado, sim, na cama sobretudo. Mas, me diga, o que ela tem pra falar contigo?
- Ah, ela se interessou na nova coisa que eu fiz, e que claro tu nunca ia fazer...
- O quê?
E ele esticou aquele mundo de orelha, deveria gastar umas duas caixas de cotonetes pra tirar a cera, de cada uma delas, com aqueles trecos enormes, que dava pra passar uma caixa de caneta bic por dentro.
- Que diabo é isso? Perdesse a noção?
-Ah, cara, é um alargador, não achou legal?Ah, mas tu nunca acha nada underground legal, né?
- Minino, tu comprasse isso onde, na Race Rodas, foi? A julgar pelo tamanho das tuas orelhas, ainda cabe um pneu da Michelin.
- Tu é muito chato, cara, como pode ser?Por isso que tu não tem elegância nenhuma.
- Veja, pra ser elegante desse jeito, prefiro ser um jeca. Um dia tu vai envelhecer, a gravidade vai puxar tua orelha pras portas do inferno e os teus lóbulos vão se arrastar no chão feito rodo. Aí a Emlurb [Empresa de Limpeza Urbana destas plagas] te contrata, coloca tu de cabeça pra baixo e tuas orelhas vão arrastando o lixo das ruas do Recife, beleza. E sai da cola de A. que ela não é pro teu bico.
Só sei que o chato se tocou e se mandou. Alguns meses depois soube que tentou colocar um piercing na ponta do bigolim, a "jóia" infeccionou e quase que o caboclo entrou pras estatísticas de amputação de pênis do estado de Pernambuco.
E o chato sou eu.



5 comentários:
"E o chato sou eu." - Concordo! #rindoalto
tu não presta, Álisson!
diAbo
Piercings, tatuagens, alargadores de orelhas e afins. Também não gosto de nada disso. Sou chata.
Ri com o piercing no "bigolim". Hahaha!
Alisson, adorei teu texto.
Mangar, enxerir... eu quando não tenho de quem mangar, mango de mim mesma.
Detesto piercing, alguns botam na língua, acho nojento, não beijaria uma boca com o tal acessório.
As pessoas estão muito cheias de dedos, claro que tem casos e casos, mas criança é o bicho mais malvado que existe, e sempre vai ter o mais forte tirando onda com o mais fraco.
O que não mata , fortalece, já dizia meu pai, e todo mundo se resolvia...
Eu sou muito chata,rs.
Bjos.
Invadi seu canto. Adorei! Muito bacana ver aqui expressões que uso cotidianamente, como mangar, bulir. Tu tem toda a razão, pra que importar bullying? Era só ter vindo cá pro Nordeste e a gente teria emprestado o termo.
Tua escrita é massa.
Vou ficar.
Beijo.
Há chatices que têm a sua beleza, e há chatices insuportáveis, pra mim as polianesas.
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