Certas vidas parecem ser assinaladas para que determinadas coisas que beiram ao absurdo aconteçam justamente à elas. Eu, que não tenho bigodão, não sou catalão e não tenho uma esposa chamada Gala (roubada de ninguém menos do que Paul Éluard), ainda assim coleciono certas coisas que parecem roteiros de filmes surrealistas.
O autêntico pararraio de doido.
Mesmo que aconteçam esporadicamente, tais coisas são dignas de nota. Um dia ainda publico em livro todas essas tosquices.
Os fatos:
Apesar de os alarmistas de plantão dizerem aos quatro cantos que Recife é violenta, em 33 anos de vida até então só havia sido assaltado 2 vezes. Uma vez, quando tinha 12 anos e me levaram o relógio - e ali Recife parecia mesmo uma cidade do Velho Oeste - e a outra, em 2004, quando um moleque de 16 anos com outro de maior me levaram uma determinada quantia em grana e o meu celular. Como isso foi a dez metros daqui de casa, logo, nem Recife é.
Hoje então, foi o meu segundo assalto, ou melhor, a segunda vez que fui assaltado na Capital do Mundo. O que é mais absurdo ainda, porque, dentro das minhas atuais condições financeiras seria mais lógico eu estar assaltando.
Mas o meu desespero não chegou a tanto.
Ia eu pela Ponte do Limoeiro, me dirigindo ao Recife Antigo, e embora o local seja reconhecidamente um ponto de risco, eu nunca, até então, fora molestado por qualquer tipo de meliante. Como o histórico me defendia, segui. Entretanto, sempre há os dias e os dias. Hoje, além de ser o dia do Rock, caiu avião lá pras bandas de Boa Viagem, e esta cidade, que já esquisita desde que o mundo dela se originou (de acordo com Cícero Dias) hoje estava esquisitinha.
Vi dois moleques vindo em minha direção, mas achei que fosse um dos pescadores que ficam por ali com suas redes de arrasto, ou mesmo com as barcaças. Qual não foi a minha surpresa quando um deles para diante de mim e diz:
- Passa o celular, peixe.
Bem, ficou evidente que ele era, de fato, um pescador, ainda que um tanto sui generis, e me deu vontade de dar-lhe uma mãozada, com um golpe de krav magá, no meio das ventas, porém o seu parceiro estira uma peixeira pra o meu rosto e completou, para que tudo ficasse bem claro:
- E a genti num tá brincanu não!
Nos meus áureos tempos já consegui a façanha de mandar pro mangue do Capibaribe um meliante mirim, mas a verdade era que ele não estava com uma faca de 35cm e tão enferrujada que eu podia escutar os bichinhos do tétano gritando:
- A genti num tá brincanu não, tomém!
Fiquei calado e levantei os braços. O moleque mais velhinho pegou minha carteira e tirou meus mirrados cinquenta reais, enquanto o que estava com a peixeira pegava o meu celular, o que me provocou uma crise interna de risos, porque meu celular é era tão rabugento, que o fato de eles não perceberem de pronto a penúria do aparelho me fez entender que o crack estava carcomendo seus parcos neurônios. O que os lábios deles denunciaram, parecendo duas tripas de plástico tostado.
- Corre, preibói. - disse o que estava com a peixeira, a única coisa que eu poderia dizer que representava a eloquência naquela hora.
Claro, não pensei duas vezes, corri.
Pensava eu, na minha lógica que por vezes me trai, que os moleques correriam justamente para o lado oposto do meu. Mas, qual não foi a minha surpresa quando os vi correndo atrás de mim, gritando:
- SEU MEEEEERDA, TOMA ESSE CELULAR DE POBREEEEEEEE!
Ao passo que lançaram o pobre motorola pra dizer helo ao velho asfalto do Bairro do Recife.
Fiquei atrás de um poste defronte ao Forte do Brum, e para minha sorte os vi correndo ponte acima, enquanto o celular despedaçado jazia no passeio. Sorrateiramente fui ver a situação do pobre motorola e pelo menos vi que o chip estava intacto. E o guardei para um futuro aparelho, que sabe Deus quando, comprarei.
Pobre de mim que imaginei que a história acabaria aí. Depois de dar viagem perdida no meu compromisso, pego o busão pra voltar pra casa. Para minha infelicidade, quando o coletivo passa perto do Shopping Tacaruna, o que acontece? Os moleques sobem no busão para assaltá-lo e chegam a anunciar o assalto, mas a nóia do crack deveria estar tão alta que quando o que estava com a peixeira ao me assaltar tenta puxá-la pra ameaçar o pessoal cortou-se bisonhamente na perna e na mão, o que ajudou a uns cidadãos que os imobilizaram, enquanto o motorista do busão descia pra chamar uma guarnição da PM.
Mas isso não foi tudo. Passando uma rápida vista nos passageiros eis que os dois me reconhecem e o que havia me abordado primeiramente na ponte grita, em tom de frustração:
- OLHA AQUELE LISO DO CELULAR PEBA* QUE A GENTE FOI ASSALTAR!ESSE PORRA DEU AZAR PRA GENTEEEEEEE!
Eu mereço.
*peba: chinfrim, desvalorizado, ruim, velho.



5 comentários:
Hhauhauahhauahuahuahuhauauauhau!!
Deu azar pros ladrões, virou herói.
desculpa, mas eu ri muito.
Ainda bem que eu amanheci meio derrubada e nao fui te encontrar :S
Alisson, isso ''e quase inacreditável.
iauahauahua
minha parte preferida: dentro das minhas atuais condições financeiras seria mais lógico eu estar assaltando.
Espero q vc tenha menos azar daqui por diante, ou que fique rico qdo publicar essas histórias! =)
Amore, por mais dramático que isso tenha sido (e foi), não pude resistir de morrer de rir!
Tu é o cara do fim do mundo que tem poderes sobrenaturais de dar azar a quem fez mal ao teu celular! Te venero, cara!
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