(Im) possível exercício de empatia

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Abre essa porra que eu quero me divertir"


Empatia, essa palavrinha mágica que talvez um décimo da humanidade pulha sabe o significado, imaginem então a percentagem que a usa efetivamente. Colocar-se no lugar dos outros, afinal, se constitui como algo meio inglório. Porque já bastam as nossas próprias dores, lá vou eu tentar imaginar a dor do outro? Quem gosta de dor é Anador e Schoppenhauer, já diria um finado amigo perdido no Beco da Fome, e que talvez ainda ande por lá trabalhando de encosto a algum caneiro desavisado.
Atualizo este blog xexelento depois de dois satélites despencarem do céu - e não acertar ninguém - e de um asteroide dar as caras pela casa da humanidade pulha e virar as costas, esnobe, que asteroide inteligente não vai se jogar num mar de merda. Pior, o Náutico, time valente em naufrágios, praticamente na série A, sem o Sport. Imagino o banzo que vai dar no time timbu que logo logo ele volta pra série B pra fazer a alegria do time rubro-negro, o eterno time do quase.
Futebolismos à parte e a iminência quase zero de o mundo entrar em colapso, fico olhando os acontecimentos cotidianos já com um enfado de um velho de oitenta anos. A torrente de informações que chega até nós, quando não nos infantiliza, como apontam alguns estudos que tenho preguiça de linkar aqui, creio eu que nos põe como velhos escaldados, dos que vivem dizendo "já vi esse filme". 
Então, sem querer bancar o sabido, que não sou, fico olhando os acontecimentos que culminaram com essa onda de ocupações ao redor do mundo que acabaram chegando ao Brasil - claro - e que acaba envolvendo os meganhas (vulgo polícia).
Estudei a minha vida inteira num colégio militar e depois ainda passei dois anos servindo ao Exército. Ora, aprendi, claro, que o 31 de Março era o dia da Revolução (de quem?) e que o comunismo era um anacronismo. Mas, ainda assim, dentro do colégio em si, o ensino para mim foi libertador e me ajudou o senso crítico, uma vez que já estávamos num período de transição e quando terminei o Colegial (é, sou do tempo em que se chamava assim) não havia alusões à revoluções militares ou algo do tipo. Só se exigia disciplina e o respeito à hierarquia. Normal, ao menos para mim. Quando cheguei ao Exército, embora minha unidade não assumisse funções policialescas (fui radiocomunicador do BCOM), aprendi ali certas funções de tropa de choque que me ajudaram a entender o outro lado. E, é claro, ajudou a fazer com que eu desistisse da carreira militar, embora o Exército em si não passe pelos apuros que os policiais militares passem todo dia.
O que me assustou - e de certa forma fascinou, porque a violência é sim, fascinante (se não ninguém dava audiência pra filme de terror, vide Jogos Mortais) - era a meticulosidade utilizada pelo aparato armado do Estado (adoro esses jargões). Então aprendi que sempre se golpeia no fígado, que é pro meliante arriar no chão, nos joelhos, nos tornozelos. Se o cara for muito folgado e espernear você empurra a cabeça dele no chão com o coturno e dá leves (eufemisticamente falando) golpes de cassetetes (na época eram feitos de carvalho) nos ouvidos, que era pra testar a estática do aparelho escutador de rádio do cidadão. Safanões, empurrões, tapões no ouvido eram apenas o trivial e deveriam ser ministrados com os velhos xingamentos.
Escrevo isso depois de ter visto uma foto da ocupação da USP em que os estudantes ora declamavam poesia para os pms, ora ofereciam flores... Como eu também já fiz política estudantil - e pulei fora - vi muito aloprado que sonhava em levar uma surra de um pm só para sentir na pele "o que os heróis revolucionários sentiram", ou demonstrar, na base do grito, que era possível "doutrinar" um "camarada soldado" e trazê-lo "para a causa socialista". Ainda bem que eu optei por algo mais tranquilo.
O fato é que um soldado que está nas fileiras do Batalhão de Choque geralmente é jovem, muitas vezes recém saído do estado probatório (pode porradear sem correr o risco de ser excluído - tirar o nome do uniforme também ajuda) e é alguém que adora violência, justamente por achá-la fascinante demais e encara o serviço com uma seriedade extrema. Sem contar as artimanhas dos comandantes para deixá-los com mais raiva: às vésperas de uma operação como a da USP simplesmente não dar almoço nem jantar, dar o mínimo de água e ainda ouvir palestras motivacionais nas quais os outros - e foda-se a empatia - sempre são baderneiros, vagabundos, idiotas, MAS QUE tomem cuidado, porque há alguém de família lá e não pega bem sair batendo geral. Tem de bater com cuidado e justamente nos mais estereotipados. Leiam-se: negros, cabeludos (a não ser que tenham olhos claros), tatuados, alguém que apareça com a camiseta do Corinthians (afinal é maloqueiro e sofredor) ou qualquer pessoa com uma peça de roupa vermelha. 
Assim como a maioria (infelizmente) das ações estudantis, a operação policial, para eles, é uma festa. E cumprir a missão é o prazer.
Não espere que esse tipo de soldado, em uma situação como essa, vá ser altruísta e compreensivo. Talvez seja até elegante, na medida do possível, ao perceber a sua cooperação (leia-se obediência), caso contrário o pau come mesmo. 
Entenderam por que eu deixei a vida militar e fui ser professor?
Aqui, o (im) possível exercício de empatia só serve pra dizer que, na hora do confronto, se quiser porrada, dê porrada e muita porrada, porque a turma é casca grossa e não vai se comover ao ouvir a turba declamando Maiakovksi, mas se não estiver afim de pagar de mártir e sentir dor, muita dor, cumpra a sentença judicial e priu. 
Não seja o brigadeiro da festa alheia.

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