Breviário dos pirados do Recife - Parte 2 : Agora Vai

sábado, 31 de dezembro de 2011

Há alguns anos, quando ainda morava no Centro do Recife, necessariamente na esquina da Av. Conde da Boa Vista com a Rua do Hospício (não bastava trabalhar em um à época, tinha de morar perto de uma rua com esse nome), ouvia, entre o burburinho natural dos finais de tarde desta aprazível (sei...) cidade, um berro desesperado de um cidadão. Para o espanto dos transeuntes, o rapaz aparecia correndo em meio a eles gritando, de braços abertos como quem voa para o futuro "AGORA VAAAAAI!". As moças recolhiam as bolsas, assustadas e os homens de bem já sentiam a mola dos braços balançando para desferir uma potente tabocada no cangote do maluco, que começava a rir e subia no primeiro busão que via diante de si.
Às vezes ele passava em frente ao finado Colégio Brasil (que funcionava na antiga sede do antigo hospício que deu nome à rua - hoje uma loja de confecções), onde eu cursava contabilidade, e um amigo meu da época, muito perspicaz, de nome Alberto Cabrobó, disse, do alto de seu conhecimento da política e das pessoas:
- Vai ver ele é algum entusiasta do milagre econômico de 73. Se ele sair gritando "Brasil: ame-o ou deixe-o, não estranharia".
Achei razoável a explicação de Alberto, que, segundo a lenda, passou a fumar maconha na cidade que lhe deu o sobrenome diretamente na raiz. Mas isso não vem ao caso.
O caso é que me intrigava aquele senhor sair gritando "Agora vai" (e as pessoas passaram a chamá-lo assim), gratuitamente. Viam algumas pessoas naquele grito espantoso resquícios de algum otimismo latente. Mas e se ele esperasse, assim como eu, em vão, o fim do mundo? E a qualquer desmantelo da Humanidade Pulha - que soma-se aos milhões, diariamente -, ele passasse a acreditar que de fato, o fim agora iria?
Não foi.
Namorava eu uma menina da cidade de Abreu e Lima e uma vez, no Carnaval do bairro, vi Agora Vai frevando como pipoca na panela no Bloco Menino da Compare (Compare era o supermercado local), e ele gritava "Agora vai!" enlouquecidamente, e passei a perceber que a frase era usada em vários contextos. E todos iam atrás do Agora Vai.
O fato é que, como todo maluco, o arauto de alguma coisa que ia pra algum canto tomou o seu chá de sumiço, e desde que eu terminei o namoro lá com a menina, viajei, voltei, saí do Centro do Recife, topei com vários outros pirados, mas nunca com ele.
Não havia topado. 
Neste ritmo sacal de final de ano, em que a gente tem de lidar com a alegria de um ano novo, (que só dura enquanto a bebida da festa dura), um dia acordei falando pra mim mesmo (sem ao menos saber o porquê) "Agora vai!", neste calor de núcleo de reator nuclear em fusão, fui resolver umas coisas em Olinda. E eis que, no meio da avenida caudalosa da capital do mundo (tô falando de Maranguape 1), ouço aquela voz familiar: AGORA VAAAAAAAAAAIIIIIIIII!!!!
Era ele, trabalhando como cobrador de kombi, e com o sorriso desdentado, passou pela minha frente, dependurado na porta da van, como Caronte deve ficar lá nas barcas do Inferno. 
Foi. Ao menos eu sei que kombi na qual ele estava foi pra o Centro de Paulista. Mas nunca vou entender, saber, imaginar, por que ele começou a sair gritando, justamente essa frase...
E por que eu tinha de reencontrar essa peste num final de ano. E logo começando o ano de 2012. 
Detesto esperanças vãs. 

2 comentários:

Lis disse...

É sempre bom te ler.

Jorge Leandro disse...

Um doido desses não tinha opção a não ser vir para Maranguape. Ciudad Del Infierno.

 
 
 

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