Teologias à parte, Abel foi a alcunha de uma figura (como diria um amigo meu) sui generis, um dos caras mais loucos com os quais topei. Ele era o irmão caçula da Lilianarme, que já andou visitando o blog numa história escabrosa, anos depois do acontecido das coisas as quais relatarei de ora em diante.
Bem, acontece que Abel era meio esquisito e estava, nos idos de 1994, com os hormônios à flor da pele. Corria a lenda no bairro (morava no Conjunto Beira Mar, no Janga, na megametrópole Paulista/PE) de que ele tinha que barbear as mãos, tal o desespero dele. E víamos tal desespero dele transfigurado nas pérolas que ele soltava quando nos encontrava nas peladas de futsal:
"Se aparecesse uma borboleta rebolando pra o meu lado, juro que eu pegaria!"
"Aquela travesti do prédio é gostosinha, pena que é bicha"
Entre outras tolices.
Lilianarme reclamava do tempo em que ele ficava trancado no banheiro descabelando o palhaço olhando desde catálogos de lingerie da De Millus a fotonovelas eróticas...
Um dia, no futsal, ele se virou pra nós,talvez tão secões quanto ele, mas ao menos já tínhamos conhecido, por bem ou por mal, o beabá, e nos perguntou como era fazer sexo com uma mulher. Encheu tanto o saco que um dos nossos amigos, já puto, gritou:
- É como enfiar o pinto em meio quilo de fígado cru.
A risadaria foi geral, porque o pobre Abel fez uma cara de nojinho, mas nos seus olhinhos apareceram um brilho estranho, de quem vai aprontar traquinagens.
E aprontou.
Dois dias depois, à noite, eis que aparece Lili toda desconfiada e com uma cara de preocupada.
- Gente, acho que tem alguém no quarto da bomba d'água. A gente ouviu uns gemidos. Fiquei com medo de que possa ser algum maconheiro perdido e lombrado.
A homarada toda foi, armada de paus e pedras, dirimir as dúvidas da pobre mocinha. Qual não foi a nossa surpresa quando, ao empurramos a porta e virmos todos o pobre Abel, sem camisa, de bermuda arriada mandando ver em mais ou menos meio quilo de fígado (isso não sei quantos anos antes de American Pie!)?
- Tabacudo, tu acreditou no que eu disse, foi? - falou Alberto Cabrobó, o autor do comentário infame escrito algumas linhas acima sobre como era uma relação sexual.
Se alguém entre nós, como eu, já não comia vísceras, se havia alguma vontade foi embora ali. E quem adorava um fígado acebolado no meio da turma eu soube que a partir daquele dia foi-se embora o encanto.
Quem pensa que a história acaba aqui está redondamente enganado.
Lili, uma sacana de carteirinha assinada, juntou umas amigas dela, os rapazes, e no outro dia, por volta das dez horas, fez um pagodinho em frente ao seu próprio apartamento, com umas meninas de shortinho e com umas faixas, onde se lia a singela mensagem:
FORA COM O TARADO DO FÍGADO ACEBOLADO!
E no chão um prato com a iguaria do petisco pra turma do sambinha. Obviamente com a procedência garantida.
Depois disso o Abel ficou quase três semanas se recusando a sair de casa com vergonha, pois o apelido dele passou a ser Fígado, sem contar a cara de estranheza das meninas que viam nele um potencial tarado.
Resultado que o rapaz ficou macérrimo e a gente terrivelmente preocupado com ele, tamanha a fixação dele em tirar o queijo (como dizemos por aqui). No começo do ano seguinte eu já estava devidamente motorizado com um robusto jipe soviético Lada Niva e lancei a proposta de levarmos Abel a uma cidade do interior daqui para ver se a gente conseguia fazer com que ele se reenturmasse conosco e o levássemos a uma casa da luz vermelha, pra ver se ele abaixava o facho.
Fomos.
A cidade, chamada Bizarra (isso mesmo!) tinha pouco mais de 8mil habitantes. A agência dos Correios parecia uma vendinha. Subimos a ladeira principal da cidade com o som alto, quando percebemos, uns doidos vinham atrás da gente, o que me fez perguntar se eles estavam achando que estávamos fazendo uma micareta na cidade.
Antes de irmos para a boite do lugarejo passamos numa venda, de verdade, pra comprarmos cigarros e umas cocas. Não tinha coca (o vendeiro disse que um caminhão da distribuidora tinha sido saqueado por moradores de uma localização vizinha), mas tinha fratelli-vita e crush. Ah, mas não tinha Free nem Plaza, mas tinha Continental (sem filtro).
Obviamente que não compramos nada além de água. O Abel, até ali então muito morgado, começou a se animar quando fomos para o lupanar.
Chegamos lá e falamos com a cafetona para dar uma atenção especial ao pobre rapaz. Ela olhou a figura e disse, vou mandar ele pra ficar com Laleska.
E chamamos o pobre Abel e demos umas dicas pra ele: nada de tentar beijar a mulher à força, entre outras miudezas. E eis que ele sobe, felicíssimos, enquanto nós ficamos na sala bebendo e jogando purrinha.
Vinte minutos depois volta o nosso querido amigo, meio amuado. Calados, esperamos que ele sentasse pra nos relatar o seguinte:
- Que merda... eu tava lá, no maior vai e vem, me achando o tal. Quando abro os olhos, vejo a mulher comendo bolacha. Ela olhou pra mim e disse "quer mudar de posição?"
Enfim...esperou tanto e isso.
Ao perdedor, as pancadas.








